Quando, em dezembro de 2024, foi selado o entendimento final entre o Mercosul e a União Europeia em Assunção, as manchetes globais focaram-se nos números comerciais, tarifas e percentagens de liberalização. Mas esta leitura é profundamente incompleta. O que realmente foi assinado no Paraguai foi um movimento de geopolítica de grande envergadura: uma resposta calculada a um mundo que se reordena, fragmenta-se e onde o nacionalismo económico já não é uma ameaça futura, mas uma realidade presente.
A assinatura foi engenhosamente desenhada em dois instrumentos. Primeiro, um acordo de associação que abrange compromissos políticos, cooperação setorial e quadros regulatórios que dialogam com o direito internacional multilateral. Segundo, um acordo comercial provisório que permite que a dimensão comercial entre em vigor rapidamente, evitando os intermináveis tempos de ratificação legislativa em 27 parlamentos europeus mais câmaras regionais. Esse desenho pragmático revela algo-chave: ambas as partes sabiam que o tempo era curto e que a janela política se fechava. Não por razões comerciais, mas geopolíticas.
Os verdadeiros impulsionadores por trás de cada negociação
Para entender por que este acordo se concretizou agora, é preciso rastrear as suas motivações reais ao longo de três décadas. Surpreenderá muitos que o impulso original não surgiu da lógica bilateral de mercados, mas de uma ameaça externa: os Estados Unidos e os seus sucessivos esforços por construir uma ordem comercial hemisférica que lhes permitisse dominar as regras do jogo.
Por volta de 1995, quando germina a própria ideia do acordo Mercosul-UE, o verdadeiro inimigo negociador não estava na mesa: era o projeto norte-americano da Área de Livre Comércio das Américas (ALCA), que ameaçava subordinar a América Latina aos interesses dos EUA. A União Europeia respondia então com uma estratégia clara: assinar acordos de associação com países que os Estados Unidos também cortejavam — México, Chile, Colômbia, Peru, América Central — sob o slogan de “paridade”. O objetivo era evidente: que as suas empresas não ficassem em desvantagem face às suas concorrentes americanas.
Em 1998, quando se trocaram as primeiras ofertas tarifárias entre o Mercosul e a UE, esse impulso negociador tinha toda a energia do mundo. Mas, em 2005, quando fracassou a IV Cimeira das Américas em Mar del Plata e o ALCA desmoronou-se, as negociações também se desmoronaram. Sem a ameaça americana visível, desapareceu também a urgência. O acordo entrou praticamente em hibernação durante anos.
Redesenho de estratégia: da contenção americana à contenção chinesa
Quando as negociações reativaram-se em 2010, o catalisador foi completamente diferente. Já não era os Estados Unidos como ameaça imediata, mas a crescente presença da China. Naquele momento, Pequim estava a transformar a América Latina no seu grande quintal de matérias-primas e investimento. Para o Mercosul e a UE, isso representava uma potencial perda de influência, mercados e capacidade de definir regras. O acordo ressurgia, então, como uma ferramenta de diversificação: garantir que toda a dependência latino-americana não fosse apenas de Pequim, mas que existisse um contrapeso europeu.
Essa motivação manteve-se em 2019, quando se alcançou o primeiro “acordo de princípio” (que depois exigiria renegociação). Mas, para então, um novo fator surgia no horizonte: a primeira administração Trump e as suas guerras comerciais. Não eram apenas tarifas; era uma ameaça sistémica à ordem multilateral do comércio, aos próprios fundamentos do sistema global de regras que tanto a Europa quanto o Mercosul precisavam para prosperar.
O colapso do multilateralismo e a reação
O que então parecia uma preocupação distante materializou-se em abril de 2025. Os mal chamados “tarifas recíprocas” representavam algo mais grave do que medidas protecionistas: significavam o fim do princípio da não discriminação, a pedra angular do sistema de comércio internacional estabelecido após a Segunda Guerra Mundial. Quando essas tarifas foram aplicadas, ficou claro que o mundo tinha mudado. O multilateralismo estava a ser demolido em tempo real.
Desde esta perspetiva de 2026, podemos confirmar o que antes era teoria: o acordo Mercosul-UE, negociado durante três décadas, que fracassou, que foi revivido, que quase morreu novamente, foi finalmente selado porque ambas as partes entenderam que viviam num cenário radicalmente adverso. Não se trata de um “Tratado de Livre Comércio” convencional. É algo categoricamente distinto.
Um acordo de nova geração: muito mais do que números
O tratado que foi assinado estabelece um quadro regulatório de última geração. Não é um simples intercâmbio de tarifas. Inclui padrões ambientais e laborais exigentes; “ancora” os países em compromissos do Acordo de Paris, criando travões contra a mudança climática; abre espaços para políticas industriais e de desenvolvimento produtivo que a nova fase de competição tecnológica global exige.
Mas, acima de tudo, funciona como uma salvaguarda perante um mundo de nacionalismo económico em ascensão, onde as interdependências económicas tornaram-se armas. Representa a opção por viver sob uma ordem baseada em regras partilhadas, com capacidade para promover desenvolvimento inclusivo, sustentabilidade e soberania digital.
A defesa do multilateralismo em tempos de fragmentação
Reconhecer isto não é nostálgico nem ingênuo. É pragmático. Tanto o Mercosul como a União Europeia reconhecem que a sua verdadeira finalidade não é apenas comercial, embora se expresse comercialmente. Para o Mercosul, o objetivo último é a paz e estabilidade na América do Sul. Para a UE, preservar a paz na Europa. Ambos os ordenamentos necessitam de previsibilidade, regras comuns e quadros que evitem a concorrência destrutiva.
Num mundo onde a geopolítica se reafirma como lógica central, onde o comércio se weaponiza e os fluxos tecnológicos se fragmentam, este acordo é uma afirmação coletiva: a escolha de permanecer dentro do multilateralismo, mesmo que este esteja a ser assediado.
Desde 1995 até hoje, a geopolítica esteve sempre presente. Não como um fator oculto, mas como o verdadeiro motor. As diferentes administrações em Washington, a emergência da China, a crise climática, a volatilidade tecnológica: cada fator redefiniu os incentivos, mas a lógica de fundo manteve-se. O Mercosul e a UE negociam tratados comerciais, sim. Mas fazem-no para construir ordem, estabilidade e poder num planeta cada vez mais fragmentado e incerto.
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Para além do comércio: por que o acordo Mercosul-União Europeia é pura geopolítica
Quando, em dezembro de 2024, foi selado o entendimento final entre o Mercosul e a União Europeia em Assunção, as manchetes globais focaram-se nos números comerciais, tarifas e percentagens de liberalização. Mas esta leitura é profundamente incompleta. O que realmente foi assinado no Paraguai foi um movimento de geopolítica de grande envergadura: uma resposta calculada a um mundo que se reordena, fragmenta-se e onde o nacionalismo económico já não é uma ameaça futura, mas uma realidade presente.
A assinatura foi engenhosamente desenhada em dois instrumentos. Primeiro, um acordo de associação que abrange compromissos políticos, cooperação setorial e quadros regulatórios que dialogam com o direito internacional multilateral. Segundo, um acordo comercial provisório que permite que a dimensão comercial entre em vigor rapidamente, evitando os intermináveis tempos de ratificação legislativa em 27 parlamentos europeus mais câmaras regionais. Esse desenho pragmático revela algo-chave: ambas as partes sabiam que o tempo era curto e que a janela política se fechava. Não por razões comerciais, mas geopolíticas.
Os verdadeiros impulsionadores por trás de cada negociação
Para entender por que este acordo se concretizou agora, é preciso rastrear as suas motivações reais ao longo de três décadas. Surpreenderá muitos que o impulso original não surgiu da lógica bilateral de mercados, mas de uma ameaça externa: os Estados Unidos e os seus sucessivos esforços por construir uma ordem comercial hemisférica que lhes permitisse dominar as regras do jogo.
Por volta de 1995, quando germina a própria ideia do acordo Mercosul-UE, o verdadeiro inimigo negociador não estava na mesa: era o projeto norte-americano da Área de Livre Comércio das Américas (ALCA), que ameaçava subordinar a América Latina aos interesses dos EUA. A União Europeia respondia então com uma estratégia clara: assinar acordos de associação com países que os Estados Unidos também cortejavam — México, Chile, Colômbia, Peru, América Central — sob o slogan de “paridade”. O objetivo era evidente: que as suas empresas não ficassem em desvantagem face às suas concorrentes americanas.
Em 1998, quando se trocaram as primeiras ofertas tarifárias entre o Mercosul e a UE, esse impulso negociador tinha toda a energia do mundo. Mas, em 2005, quando fracassou a IV Cimeira das Américas em Mar del Plata e o ALCA desmoronou-se, as negociações também se desmoronaram. Sem a ameaça americana visível, desapareceu também a urgência. O acordo entrou praticamente em hibernação durante anos.
Redesenho de estratégia: da contenção americana à contenção chinesa
Quando as negociações reativaram-se em 2010, o catalisador foi completamente diferente. Já não era os Estados Unidos como ameaça imediata, mas a crescente presença da China. Naquele momento, Pequim estava a transformar a América Latina no seu grande quintal de matérias-primas e investimento. Para o Mercosul e a UE, isso representava uma potencial perda de influência, mercados e capacidade de definir regras. O acordo ressurgia, então, como uma ferramenta de diversificação: garantir que toda a dependência latino-americana não fosse apenas de Pequim, mas que existisse um contrapeso europeu.
Essa motivação manteve-se em 2019, quando se alcançou o primeiro “acordo de princípio” (que depois exigiria renegociação). Mas, para então, um novo fator surgia no horizonte: a primeira administração Trump e as suas guerras comerciais. Não eram apenas tarifas; era uma ameaça sistémica à ordem multilateral do comércio, aos próprios fundamentos do sistema global de regras que tanto a Europa quanto o Mercosul precisavam para prosperar.
O colapso do multilateralismo e a reação
O que então parecia uma preocupação distante materializou-se em abril de 2025. Os mal chamados “tarifas recíprocas” representavam algo mais grave do que medidas protecionistas: significavam o fim do princípio da não discriminação, a pedra angular do sistema de comércio internacional estabelecido após a Segunda Guerra Mundial. Quando essas tarifas foram aplicadas, ficou claro que o mundo tinha mudado. O multilateralismo estava a ser demolido em tempo real.
Desde esta perspetiva de 2026, podemos confirmar o que antes era teoria: o acordo Mercosul-UE, negociado durante três décadas, que fracassou, que foi revivido, que quase morreu novamente, foi finalmente selado porque ambas as partes entenderam que viviam num cenário radicalmente adverso. Não se trata de um “Tratado de Livre Comércio” convencional. É algo categoricamente distinto.
Um acordo de nova geração: muito mais do que números
O tratado que foi assinado estabelece um quadro regulatório de última geração. Não é um simples intercâmbio de tarifas. Inclui padrões ambientais e laborais exigentes; “ancora” os países em compromissos do Acordo de Paris, criando travões contra a mudança climática; abre espaços para políticas industriais e de desenvolvimento produtivo que a nova fase de competição tecnológica global exige.
Mas, acima de tudo, funciona como uma salvaguarda perante um mundo de nacionalismo económico em ascensão, onde as interdependências económicas tornaram-se armas. Representa a opção por viver sob uma ordem baseada em regras partilhadas, com capacidade para promover desenvolvimento inclusivo, sustentabilidade e soberania digital.
A defesa do multilateralismo em tempos de fragmentação
Reconhecer isto não é nostálgico nem ingênuo. É pragmático. Tanto o Mercosul como a União Europeia reconhecem que a sua verdadeira finalidade não é apenas comercial, embora se expresse comercialmente. Para o Mercosul, o objetivo último é a paz e estabilidade na América do Sul. Para a UE, preservar a paz na Europa. Ambos os ordenamentos necessitam de previsibilidade, regras comuns e quadros que evitem a concorrência destrutiva.
Num mundo onde a geopolítica se reafirma como lógica central, onde o comércio se weaponiza e os fluxos tecnológicos se fragmentam, este acordo é uma afirmação coletiva: a escolha de permanecer dentro do multilateralismo, mesmo que este esteja a ser assediado.
Desde 1995 até hoje, a geopolítica esteve sempre presente. Não como um fator oculto, mas como o verdadeiro motor. As diferentes administrações em Washington, a emergência da China, a crise climática, a volatilidade tecnológica: cada fator redefiniu os incentivos, mas a lógica de fundo manteve-se. O Mercosul e a UE negociam tratados comerciais, sim. Mas fazem-no para construir ordem, estabilidade e poder num planeta cada vez mais fragmentado e incerto.