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Tanques de silício: mantenha-se faminto, mantenha-se louco — Stuart Brand - ForkLog: criptomoedas, IA, singularidade, futuro
Stuart Brand — não é programador nem criptógrafo. Ele é biólogo, ex-militar e participante de festas psicodélicas dos anos 1960. Mas foram justamente suas ideias que traçaram uma rota direta do movimento hippie para fóruns de cypherpunks e redes descentralizadas.
O ForkLog analisou como o criador do «Catálogo de toda a Terra» formulou os principais princípios da liberdade digital, por que a informação quer ser cara e livre ao mesmo tempo, e como a ideia de «manutenção eterna» explica a sobrevivência do bitcoin.
Começo
O Vale do Silício nem sempre foi um lugar de investidores de risco e startups de hoodie. Sua base eram os ideais da contracultura dos anos 1960. O principal arquiteto, que uniu rebeldes hippies e os primeiros hackers, foi Brand. Sua biografia é um mapa do desenvolvimento da internet moderna: dos textos psicodélicos de Ken Kesey até a filosofia do código aberto e dos registros distribuídos.
Para a maioria, Stuart Brand é conhecido indiretamente — através do famoso discurso de Steve Jobs, que citou a frase final do «Catálogo de toda a Terra»: «Permaneça faminto. Permaneça louco». Mas ele mesmo é uma figura muito mais ampla do que uma simples citação.
Aos 87 anos, ele continua repensando como nossa civilização funciona: desde escrever tratados filosóficos sobre a reparação de tudo que existe até revisar seu próprio modo de vida. Até a recente venda de sua lendária casa flutuante não foi apenas uma transação imobiliária, mas uma ilustração da teoria dos sistemas de manutenção que sustentam nosso mundo complexo.
Ao longo da vida, as opiniões de Brand evoluíram, muitas vezes provocando a ira de antigos aliados. No livro «Ordem de toda a Terra», ele se posicionou contra ecologistas clássicos, apoiando engenharia genética, urbanização e energia nuclear. Brand chamou essa abordagem de pensamento «turquesa»: diferente dos «verdes», os «turquesa» veem na tecnologia não um mal, mas uma ferramenta de salvação do planeta.
Acesso às ferramentas: Google em papel
Em 1966, Brand foi um participante ativo em experimentos contraculturais e no grupo «Travessuras Alegres», liderado por Kesey.
A história do surgimento desse grupo merece menção especial. Em 1959, Kesey foi convidado a tomar LSD e mescalina várias vezes por semana sob supervisão médica, e depois resolver problemas matemáticos simples. Era pago por participar.
Depois de 16 anos, Kesey descobriu que esse projeto fazia parte de um grande experimento da inteligência americana para estudar possibilidades de manipulação do indivíduo com drogas psicoativas. O acesso livre às substâncias e o dinheiro incentivaram Kesey, que sonhava desenvolver uma comunidade (Arcádia).
Ao conseguir a chave do gabinete onde guardavam as drogas, ele as levava secretamente para Arcádia e promovia festas grandiosas lá. Essas reuniões, feitas praticamente com dinheiro da CIA, entraram para a história da literatura graças ao amigo de Kesey, Allen Ginsberg.
Mergulhado nesse caldeirão de ideias, Brand iniciou uma campanha com um slogan simples: «Por que ainda não vimos uma foto de toda a Terra?».
Ele distribuía pins com essa pergunta, acreditando que uma visão do planeta de fora mudaria a consciência da humanidade, mostrando-o como uma «ilha frágil no vácuo negro». Seus esforços não foram em vão: em 1967, um satélite tirou uma foto assim, que adornou a capa da primeira edição do «Catálogo de toda a Terra».
Em 1985, Brand, junto com Larry Brilliant, lançou o The WELL. Era uma das primeiras comunidades virtuais.
Se o «Catálogo» fornecia ferramentas para sobrevivência física, o The WELL era um espaço para a sobrevivência intelectual. Aqui, se encontraram veteranos da contracultura e jovens geeks de computador.
O The WELL foi um protótipo dos atuais DAOs. Na comunidade, não havia moderação rígida de cima para baixo, mas normas internas fortes. O princípio de Brand, «Você possui suas palavras», foi revolucionário. Ele atribuía responsabilidade pelo conteúdo ao autor, criando uma atmosfera de confiança e reputação, e não de caos anônimo.
Foi justamente no interior do The WELL e de BBS similares que o movimento cypherpunk se desenvolveu. Pessoas acostumadas ao livre intercâmbio de ideias começaram a pensar em proteger essa liberdade da vigilância estatal. John Gilmore e outros pioneiros da criptografia fizeram parte desse ecossistema.
O The WELL ensinou as pessoas a coordenar-se online sem uma liderança central. E embora Brand não tenha feito declarações diretas sobre bitcoin ou DAOs atuais (ele é mais distante do anarquismo digital), muitas criptossistemas foram criados por analogia com as primeiras comunidades digitais.
O preço da liberdade da informação
Em 1984, na primeira Conferência de Hackers, Brand, em diálogo com Steve Wozniak, pronunciou uma frase frequentemente citada fora de contexto: «A informação quer ser livre».
Na versão completa, a frase soa como um paradoxo, uma previsão do que os blockchains modernos representam:
O contexto atual dessa citação vai muito além de pirataria ou Open Source:
Brand previu o conflito entre a facilidade de copiar dados e o valor da informação confiável. O bitcoin resolveu esse paradoxo ao tornar a informação livre para leitura, mas cara para falsificação.
Filosofia de manutenção: por que os sistemas sobrevivem
Nos últimos anos, Brand se aproximou de uma das suas ideias mais maduras — a de manutenção, que ele vê como essência da civilização. Para ele, estamos acostumados a valorizar inovação, mas é o cuidado rotineiro — com objetos, casas, corpos e o planeta — que permite a continuidade da vida.
Essa filosofia também se reflete em sua vida pessoal. Recentemente, foi divulgado que Brand e sua esposa, Ryan Felan, colocaram à venda sua casa em Sausalito. Não é apenas uma residência, mas um barco de 64 pés, Mirene, construído em 1912.
A venda dessa casa, que ele cuidou por mais de 40 anos, simboliza uma nova fase, mas a ideia de cuidar das coisas permanece central em seu legado.
Como isso se conecta com a indústria cripto?
Bitcoin é frequentemente criticado por seu desenvolvimento lento e pela ausência de forks com novas «features». Mas, na visão de Brand, estabilidade é mais importante que novidade. Miners, nós de nós e desenvolvedores do Bitcoin Core cuidam da manutenção global da rede.
Brand ensina: quanto mais tempo um sistema existe e é sustentado, mais confiável ele é (efeito Lindy). A fundação Long Now, que ele apoia, constrói relógios dentro de uma montanha no Texas, projetados para durar 10.000 anos. É um mecanismo gigante que tica uma vez por ano, e o cuco sai a cada milênio. O objetivo do projeto é ampliar o horizonte de planejamento da humanidade: fazer-nos pensar não em relatórios trimestrais ou ciclos eleitorais, mas em séculos, com responsabilidade pelos descendentes distantes.
Criptomoedas com blockchain imutável são uma tentativa digital de criar relógios semelhantes: um sistema que continua a ticar independentemente de mudanças de governos, guerras ou falências corporativas. Embora Brand seja cauteloso com ativos cripto, suas ideias de autoatendimento digital e responsabilidade distribuída podem ser vistas como um prólogo ideológico ao bitcoin.
A trajetória desde a comunidade «Travessuras Alegres» até desenvolvedores anônimos que protegem a privacidade com código é uma história de que as ferramentas devem pertencer às pessoas, não às corporações. E que a liberdade exige manutenção constante e rotineira.
Brand permanece uma figura única, capaz de mudar a perspectiva de gerações inteiras. Como isso funciona? Primeiro, ele nos mostrou a Terra do espaço. Não é apenas uma imagem bonita, mas uma prova de que vivemos em uma «nave espacial» com ciclo fechado de recursos, sem salvador externo. Daí vem a ideia de responsabilidade pessoal (como a tripulação de uma nave) e a necessidade de cuidar dos recursos — seja o meio ambiente ou o espaço digital.
Começando pelo desejo de ver a Terra inteira, ele nos ensinou a perceber as conexões entre ecologia e eletrônica, entre liberdade de informação e responsabilidade pelo futuro. E mesmo agora, aos quase 90 anos, não dá respostas prontas, mas oferece ferramentas para reflexão, lembrando: o trabalho mais importante não é só criar algo novo, mas cuidar do que já temos.